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Auto-entrevista

Auto-entrevista

VOCÊ COMEÇOU A FAZER RÁDIO E TV, MAS DECIDIU MUDAR DE CURSO. QUAIS FORAM OS MOTIVOS?
Prestei vestibular aos 17 anos, numa fase ainda muito imatura. Na época (2001) tive uma grande dúvida em optar por Rádio e TV e Jornalismo, pois achava que nas duas áreas me daria bem. A primeira, por ter iniciado em Minas Gerais, aos 12 anos, o trabalho de produção de vídeos (casamentos, aniversários, batizados, formaturas, etc). A segunda, por ser apaixonado pela leitura de jornais diários e revistas semanais (na minha infância já lia a Folha de S. Paulo, Super Interessante e Veja).
Depois de cursar um semestre de Rádio e TV, optei pela transferência para Jornalismo e não me arrependi. Depois de cursar algumas disciplinas daquele curso e entrar em contato com estudantes veteranos, notei que muito do que seria transmitido no conteúdo, já havia vivenciado na prática. E não havia sentido pagar quatro anos para apenas ter o diploma.

E O QUE VOCÊ ACHA DO CURSO DE JORNALISMO?
Os dois primeiros anos de curso só me colocaram para baixo. Professores sem didática, muitos seminários preparados por colegas e repleto de imperfeições, entre outras coisas.
Algo que considero relevante: depois de entrar para o jornalismo diário, praticamente caí em conflito com a universidade. Percebia que estava sendo enganado, não sentia nada da realidade no conteúdo passado pelos professores.

ENTÃO QUER DIZER QUE NÃO ACONSELHA AS PESSOAS A FAZEREM O CURSO?
Acredito que apenas a faculdade não seja suficiente. Vou citar meu exemplo: para driblar os problemas do curso procurei pela prática da profissão. No segundo semestre de 2001, conquistei uma bolsa trabalho na TV Unimep e lá fiquei na pauta e produção (além de carregar peso, servir para postar correspondência e ser burro de carga) de três atrações semanais: Guion (voltado exclusivamente à divulgação de eventos culturais da cidade), Ponto de Vista (programa de entrevista com teor acadêmico) e Boletins para a programação.
Dali me infiltrei no Centro Acadêmico de Comunicação, como diretor de Jornalismo, e mesmo sem ter qualquer disciplina prática naquela altura do campeonato, desenvolvi um fanzine chamado O Henfil, no formato A4 dobrado ao meio, totalizando 12 páginas. Devido ao caráter informal da publicação, fizemos apenas quatro edições, sendo 500 exemplares cada, distribuído entre os alunos dos cursos de publicidade e propaganda, jornalismo e RTV.
Ainda na linha alternativa do fanzine, desenvolvi mais cinco edições de O Paralelo, produzido em parceria com os meus colegas de sala.

DEVE TER SIDO FÁCIL FAZER FACULDADE COM O “PAITROCÍNIO”…
Pelo contrário, sempre me esforcei ao máximo para ajudar os meus pais nas despesas em Piracicaba. No segundo ano consegui convencer o departamento financeiro da universidade de que precisava de uma bolsa. Conquistei, então, uma vaga de quatro horas de trabalho no Centro Cultural Martha Watts, um espaço que estava para ser inaugurado em Piracicaba e que era a verdadeira menina dos olhos da Unimep, com investimento de R$ 4 milhões.

MAS VOCÊ FOI PARAR NUM DEPARTAMENTO QUE SEQUER TINHA LIGAÇÃO COM A SUA ÁREA…
Mais uma vez acredito que valeu a pena. No CCMW aprendi a restaurar fotografias originais (sem o uso de computador, tudo no processo manual) e a fazer visitas monitoradas ao acervo, o que me ensinou muito a gostar de história e cultura como um todo. Pode ter certeza que foi algo que influenciou bastante para que eu me desse bem profissionalmente em jornalismo cultural.

E A SUA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA EM JORNALISMO, COMO ACONTECEU?
Recebi o convite para trabalhar no Jornal A Tribuna Piracicaba, com mais de 30 anos de atuação. O convite veio do editor do periódico, Erich Vallim Vicente e na ocasião mal sabia o que era um lead (e acredite, estava no quinto semestre da faculdade!). Por se tratar de um jornal diário, impresso e familiar, todos tiveram muita paciência comigo e me ensinaram tudo. Fiquei por dois anos e meio responsável pela Página 3 (apenas de assuntos culturais). A Tribuna foi para mim a escola do jornalismo diário. Do bom jornalismo.

ENTÃO DEPOIS QUE ENTROU NA ÁREA, VOCÊ PRATICAMENTE ABANDONOU A FACULDADE?
Quis aproveitar para grudar em alguns poucos professores com bagagem. Nos dois últimos anos me tornei monitor dos jornais laboratórios do curso (por dois semestres, fui editor assistente do jornal laboratório Impressão. Depois fui monitor do Jornal Ensaio, transmitido pela TV Unimep. Nele era responsável pela criação de um site, pelas fotografias dos bastidores e acompanhamento de todas as gravações. E no oitavo semestre fui editor assistente do jornal Ponto Final (encartado no Jornal de Piracicaba), com as reportagens elaboradas a partir do projeto final do curso.

O QUE FEZ LOGO DEPOIS DA FORMATURA?
Sai com o currículo embaixo do braço e o distribuí a quem encontrava para frente, embora estivesse feliz em A Tribuna. Isso foi em janeiro de 2005, quando já possuía também o MTB – registro necessário para exercer a profissão -, pois tirei o documento com antecedência.

VOCÊ TEVE SUCESSO NESTA BUSCA?
Em março de 2005, o deputado federal João Herrmann Neto (que morreu em abril de 2009) estava reestruturando a sua equipe política. E havia em meio ao quadro de contratados um jornalista. Recebi a notícia de que uma entrevista estava acontecendo em uma manhã de sexta-feira e mesmo sem saber uma nota sobre o parlamentar, me arrisquei. No fim das contas ele optou por dois profissionais, me incluindo no seu quadro de funcionários.

AS PESSOAS CLASSIFICAVAM O JOÃO HERRMANN COMO UM POLÍTICO COMPLICADO DE TRABALHAR. VOCÊ ACHA O MESMO?
Permaneci em seu escritório político até janeiro de 2007, pois João Herrmann não se reelegeu nas eleições de outubro de 2006 e o desligamento era automático. No entanto, este período foi de grande aprendizado: tive a chance de desenvolver um web site (ainda no ar, o www.joaoherrmann.com.br), participar de seminários em todo o Estado e acompanhá-lo em viagens para aproximadamente 100 cidades do interior paulista. É o que defino sempre como um aprendizado por minuto, devido ao alto poder de articulação do político, experiência e intelectualizado. Ele sempre foi muito educado e prestativo, não tenho queixas desta época.

COM A NÃO REELEIÇÃO DE JOÃO HERRMANN, FICOU DESEMPREGADO?
Antes mesmo do desligamento oficial do gabinete político – logo que o resultado das eleições saíram – comecei novamente a procurar emprego. E encontrei em Americana, cidade distante poucos minutos de Piracicaba, no jornal Todo Dia. Atuei como repórter das cidades de Hortolândia, Monte Mor e Pedreira, uma vez que o periódico atuava em 16 cidades da região e cada repórter estava designado para acompanhar dois ou três municípios. Por não possuir automóvel naquela época, a ida para Americana me desgastava por completo. De ônibus o trajeto levava em média duas horas. Isso fez que eu começasse a pensar em um novo emprego ou até mesmo em ficar desempregado.

E FICOU?
Pode acreditar que não! Tive mesmo muita sorte e ainda não sei o que é desemprego. Na segunda quinzena de fevereiro, recebi um telefonema de uma amiga jornalista, a Flávia Romanelli, informando que o Jornal de Piracicaba contrataria um repórter para a editoria de Cultura. Não esperei cinco minutos e fiz contato com a editora de cultura, Eleni Destro, para marcar minha entrevista. Uma semana depois estava no teste da redação e em mais uma semana fui chamado a permanecer no teste definitivo de cinco dias. Não sei dizer qual o critério permitiu a minha contratação, pois sei que profissionais mais gabaritados e com experiência mais vasta concorriam comigo.
Cheguei ao Jornal de Piracicaba exatamente em 28 de fevereiro de 2007, no meu aniversário

O QUE VOCÊ ACHA DO JORNAL DE PIRACICABA?
Sou suspeito falar, pois é a empresa em que trabalho. Sou daqueles que vestem a camisa, que trabalha até fora do horário de expediente e que adora novos projetos e desafios.
No JP, além de reuniões de pautas diárias e semanais, temos uma equipe razoavelmente grande, que inclui diagramadores, arte-finalistas, repórteres, revisores, editores, motoristas, fotógrafos, entre outros. São pessoas que se relacionam muito bem e trabalham num clima agradável.
É um jornal sólido, que oferece boa estrutura aos funcionários. E o que é melhor: tem credibilidade, pois busca transmitir a informação por completo ao leitor, exercendo o compromisso diário do bom jornalismo.

COMO É A ROTINA EM UMA EDITORIA DE CULTURA?
No caso da editoria de cultura do JP, ela está estruturada da seguinte forma: a nossa editora é Eleni Destro, que coordena as pautas e recebe nossas sugestões. Somos três repórteres: Marcelo Rocha, Marcela Benvegnu e eu.
De terça-feira a quinta-feira e aos sábados o JP publica o caderno Cultura, com uma média de 12 páginas. Às sextas-feiras, o caderno se transforma em Fim de Semana, com 16 páginas. A nossa equipe ainda produz matérias para os cadernos Jornalzinho (suplemento infantil com 12 páginas tabloide, com circulação aos sábados) e Tribos (voltado ao público entre 13 e 25 anos e distribuído aos sábados, com quatro páginas standards). Para o domingo, ao invés de sair o caderno Cultura, o JP publica o caderno Movimento, entre 12 e 16 páginas, com matérias culturais mais voltadas ao resgate da história da cidade e região, programação de TV, uma página dedicada a lançamento de livros, charges, programação local, entre outros assuntos. Neste caderno, existe a possibilidade ainda de matérias de comportamento e saúde mental.

MAS VOCÊ DESCREVEU A SISTEMÁTICA DO JORNAL E ESQUECEU-SE DE MENCIONAR COMO FUNCIONA UMA EDITORIA DE CULTURA?
Desculpas! Vou responder: todas as segundas-feiras, religiosamente, temos a reunião de pauta responsável pela definição das matérias a serem trabalhadas durante toda a semana, em todos os cadernos.
Nestas reuniões, editor e repórteres (em especial os repórteres) apresentam suas sugestões de pauta e as defendem. Cabe ao editor analisar se elas entram ou não, se devem virar capa, se merecem um infográfico ou tratamento especial de fotografia (muitas das imagens que recebemos são de divulgação, mas nas matérias de capa geralmente enviamos fotógrafos da redação para produzir algo melhor elaborado).
Entram como prioridade para matérias de capa principalmente espetáculos de teatro com atores, escritores e diretores renomados, vernissages de artistas conhecidos, lançamentos de livros de peso, assim como shows musicais.
Com a pauta em mãos, o repórter produz suas matérias e as entrega ao editor. Marca as fotos e quase sempre faz as entrevistas por telefone. Ao editor, cabe fazer os ajustes de acordo com os padrões jornalísticos e ortográficos, seleção de imagens, produção de título, linha fina, legenda, olho, chapéu. Depois de editado, o material segue para o diagramador, que recebe as orientações do editor de como deve ficar na página. Uma print do material pronto segue para o departamento de revisão e em seguida, novamente ao editor, que corrige qualquer problema.
Faz-se necessário destacar a diferença de prioridade dos cadernos. Em Cultura, o carro-chefe é o factual. No Movimento, as pautas são frias, mas sempre culturais.

MUITOS JORNALISTAS ALMEJAM TRABALHAR NA CAPITAL. É O SEU CASO?
Acho São Paulo maravilhoso e fico fascinado a cada visita. E todas as vezes em que estou lá, sinto que aquela cidade me chama. No entanto, se tivesse uma oferta, pensaria duas vezes. A renda que consigo no interior versus qualidade de vida é razoavelmente boa. Além do que eu também atuo desde fevereiro de 2009 como assessor de comunicação da Câmara de Saltinho, cidade distante 15 minutos de Piracicaba e com apenas sete mil habitantes. E aos sábados, desde fevereiro de 2007, faço pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo na Unimep (a conclusão está prevista para outubro de 2009).

JÁ QUE FALOU DA CÂMARA DE SALTINHO, PORQUE VOCÊ VOLTOU PARA A ASSESSORIA DE IMPRENSA?
Tudo aconteceu muito por acaso. Estava na redação do JP e recebi o telefonema da Tatiane Mendes, que é advogada em Piracicaba e na época da faculdade deu aulas comigo na Escola Hélio Penteado de Castro. Ela comentou que estava como assessora jurídica da Câmara de Saltinho e que pela primeira vez abriram uma vaga para assessor de imprensa. Então decidi mandar o meu currículo para o presidente da Câmara, José Florindo da Cruz. Fiz a entrevista, ele curtiu meu trabalho e resolveu me contratar. Conversei no JP para que entrasse sempre a partir das 13h e desde fevereiro trabalho das 8h às 12h em Saltinho, além de acompanhar as sessões na terça-feira, às 19h30. É um trabalho interessante, são 9 vereadores para uma cidade de 7 mil habitantes, muito parecida com a minha. Todas as semanas eu produzo notícias sobre o trabalho dos vereadores e as coloco no jornal Folha de Saltinho e envio como sugestão para a Folha de Saltinho e O Verdadeiro, de Rio das Pedras. Também sou o responsável pela manutenção do endereço www.camarasaltinho.sp.gov.br, que em breve vai ganhar novo layout.

COM DOIS EMPREGOS E A PÓS-GRADUAÇÃO, COMO ENCONTRA TEMPO PARA ATUALIZAR O SEU BLOG?
Não sei responder exatamente como consigo. Nas horas vagas, depois da aula ou do trampo e aos finais de semana. Mantenho o Dando Nota faz oito ou nove meses e faço questão que ele continue a existir porque é neste espaço que manifesto minha opinião sobre eventos culturais da cidade, transmito informações sobre tecnologia e variedades, além de disponibilizar parte das matérias produzidas no Jornal de Piracicaba.

QUEM VOCÊ TEM COMO ESPELHO? ALGUÉM IMPULSIONOU SUA CARREIRA?
Aos oito anos de idade tive uma professora de Redação que motivou minha classe a produzir um jornal mural, que receberia atualização semanal e teria um coordenador. Acabei me destacando no meio dos colegas. Da turma da sala, era o único que assinava jornais e revistas e as recebia em casa. O trabalho se estendeu por mais dois anos e nunca mais tirei uma certeza: quero ser um jornalista.
Vencida a fase, uma nova pergunta. Desta vez era a experiência em pessoa: minha professora de Língua Portuguesa, a mesma que me despertou o lado jornalístico. Ela dizia: “Seria você um bom contador de histórias?”.
Quando estava na quarta ou quinta série, me deparei com material talvez jamais requisitado na empoeirada biblioteca de minha cidade: um manual de redação e estilo para jornalistas do jornal Folha de S. Paulo, provavelmente doado por alguém.
A visita à biblioteca se estendeu a outras três ou quatro semanas. Não era para leitura. Queria renovar o precioso material. Afinal, pensava inquieto, ele não caiu na minha mão por acaso!
Depois disso até fiz uma sugestão nas aulas de Redação: que tal se a cada semana todos fizessem um texto sobre um fato que saiu no jornal? A aceitação, por partes de alguns, não foi das melhores. Mas convenci quem mais precisava: a professora.
Tanta leitura assim motivou a diretoria da escola a assinar os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo para os nobres alunos.
Aos poucos as dúvidas deixaram de existir e o jornalismo sempre vinha como opção.

O QUE VOCÊ ENTENDE POR JORNALISMO CULTURAL?
Sei que existem duas frentes quando se fala no assunto. A mais forte delas, que trata com nostalgia o jornalismo cultural do passado, nascido em pubs, cafés e pontos de encontro e voltado a análise crítica de espetáculos, peças, concertos, entre outros. Esta tese prega que a produção atual se entregou à indústria cultural e por isso perdeu a sua identidade. E outra frente diz que a sociedade se transformou e o jornalismo cultural nada mais fez do que acompanhar esta mudança, priorizando o que atualmente o público prefere: notas rápidas, fotos bem produzidas, texto recheado de virtuosismo, etc.
Entendo como jornalismo cultural um mix de ambos. Acredito que falta aos cadernos de cultura um pouco mais de crítica especializada sobre determinado assunto e que em determinados momentos o texto se torna propagandista demais. Na verdade quando escrevemos nos igualamos muito à linguagem publicitária. E tem mais uma coisa: enquanto em reportagens de economia, cidades e política (a título de exemplo), é indispensável os dois lados, as duas ou mais fontes, em jornalismo cultural esta regra tem sido cada vez menos adotada. Se um determinado artista vai abrir uma exposição de artes, a matéria nada mais faz do que vender a exposição e convencer o leitor de que aquilo precisa ser visitado e consumido. O mesmo vale para lançamentos de CDs. Publica-se a história da banda, ouve-se dois ou três integrantes, aborda-se o processo de produção das faixas, as locações, os vídeos-clipes, mas não se faz uma contestação.

QUEM FAZ JORNALISMO CULTURAL PRECISA DOMINAR COMPLETAMENTE TODAS AS ÁREAS DA CULTURA (ARTES PLÁSTICAS, CINEMA, LITERATURA…)? ATÉ QUE PONTO A ESPECIALIZAÇÃO É IMPRESCINDÍVEL E ATÉ QUE PONTO ELA É UMA REALIDADE?
Confesso que na rotina de uma redação percebi que não me dou bem em algumas áreas do jornalismo cultural. Dois exemplos: em eventos de dança e música. Temos na redação dois colegas que dominam o assunto – um porque fez mestrado na área e o outro por ter sido dono de loja de discos -, logo estas pautas acabam sendo de responsabilidade deles. Por outro lado gosto de fazer matérias de artes plásticas, cinema, literatura e principalmente as de caráter histórico (estas para o caderno Movimento).
Acredito que nós jornalistas somos especialistas em generalidades. Temos a capacidade de nos moldar conforme a ocasião, de dançar conforma a música. Isto porque o nosso trabalho é relatar algo. Logo, a partir de uma conversa, mesmo não dominando o assunto, posso escrever um bom texto. Isso não quer dizer que se eu tiver uma bagagem, uma especialização, este texto não terá mais peso. Terá, na certa, sim.
Logo, a especialização é um caminho, porém muitas vezes inviável. Pode-se encontrar no mercado de cursos de pós-graduação o curso de Jornalismo Cultural, mas dificilmente se encontrará um curso de dança aplicada ao o jornalismo cultural. Se o repórter deseja ser crítico em teatro, teria como opção mais próxima, por exemplo, que fazer um curso em crítica teatral na ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André), no entanto há de se pensar que este tem como público alvo a classe teatral e não a jornalística.
Sou a favor da especialização teórica, mas acredito muito na especialização prática, aquela vivenciada no dia-a-dia.

QUAIS FORAM SUAS MAIORES DESCOBERTAS NO JORNALISMO CULTURAL?
Posso afirmar com plena convicção: a rotina na área só me faz pensar em jamais abandoná-la. Até mesmo no curso de pós-graduação em jornalismo contemporâneo (atualmente em fase de conclusão), quis fazer como tema de conclusão de curso o jornalismo cultural. Vou estudar o jornalismo ensaístico que a Revista Bravo se propõe a vender (e não vende).
Mas a vivência me fez perceber a guerra de egos deste mundo, a falta de espaço para muita gente boa e que a nossa área é muito distinta das demais, porém muito semelhante. Muda-se a forma de escrever, mas a apuração deve ser a mesma, como em qualquer outra editoria. O repórter de cultura é constantemente visto pelos seus colegas de outras áreas como superficial, mas deve zelar para que esta imagem não prevaleça.
Se no começo existia uma ânsia por conhecer pessoas da grande mídia, atores, escritores e cantores, aprendi que devemos tratar todos igualmente, do mais simples agente cultural (aquele que leva a cultura nos bairros a quem não possui), até o campeão na venda de discos. E aprendi a não ser “tiete”, a não me gabar por entrevistar determinada “celeb”.

QUAL A MÍDIA MAIS PROPÍCIA PARA O DEBATE CULTURAL? A INTERNET SURGE COM FORÇA NESSE SENTIDO?
Ainda acredito muito no meio impresso. É nele em que estão assuntos mais aprofundados. Sim, a web está presente com seus milhares de hiperlinks e permite o acesso de uma forma mais ampla, mas o repórter de um editoria impressa já possui como compromisso a elaboração de um texto com mais rigor, mais técnica e critério. Sou uma pessoa que milito nas duas frentes e em cada uma delas procuro me manifestar de uma forma. No meu blog, por exemplo, quero levar um conteúdo distinto daquele que entrego no papel (pelo menos em alguns quesitos).

QUE CONSELHOS VOCÊ DÁ A QUEM PRETENDE ATUAR NA ÁREA DE JORNALISMO CULTURAL?
Este conselho eu estendo a qualquer pessoa que faz jornalismo. Procure se infiltrar na área o quanto anos, tente estágios mesmo que estes não lhe tragam remuneração alguma. São eles os responsáveis por lhe abrir as portas quando o canudo estiver em mãos.
Em especial ao aspirante a repórter de cultura, não achar que a área é uma grande festa, regada a coquetéis. Trabalha-se muito e a produção é três, quatro vezes maior que a de um repórter policial, político, de meio ambiente.
E sim, muita leitura, mas não apenas de livros, como também de revistas semanais (desde as especializadas até as genéricas), pois estas possuem um estilo muito próximo do que se pratica em cultura.
Lembrar sempre que existe jornalismo além do lead. Principalmente em cultura.

Comentários»

1. Gislaine A.Teixeira - 14/10/2009

Rodrigo, amei, você é muito bom no que faz, isso se chama dom e talento, mas acima de tudo você tem uma energia incrível… parabéns pela auto-entrevista. Abraços.